Secretaria Municipal de Saúde






Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.

Artigo Artigo XXV da Declaração Universal de Direitos Humanos



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Organizado por William H Stutz

Veterinário Sanitarista

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quinta-feira, 7 de março de 2013

Outra verdade incômoda



Temos visto muitas notícias sobre infecções hospitalares e a sensação que fica é a de que essa tragédia acaba de chegar a Uberlândia. Infelizmente, não é verdade. O assunto é complexo por ter múltiplas causas (algumas inevitáveis), por depender da atuação de todos os envolvidos e, principalmente, por envolver a vida das pessoas. Com o devido respeito às famílias que perdem seus parentes, devemos basear nossas condutas em aspectos técnicos e discussões racionais e responsáveis, ainda que seja impossível abandonarmos nossas emoções. Ouso citar alguns conceitos na tentativa, talvez pretensiosa, de trazer um pouco de luz à discussão.

1 – todos nós convivemos com um grande número de agentes infecciosos (bactérias, fungos, vírus, entre outros), sem que esses nos causem doença. A isso chamamos colonização, como ocorre em nossa pele, intestinos, narinas e boca. Isso é normal e até benéfico;

2 – ao usar antibióticos, eliminamos as bactérias sensíveis e causamos um desequilíbrio. Passam a proliferar bactérias que são resistentes e essas podem ou não causar doença, o que depende da imunidade da pessoa;

3 – buscando diagnosticar e tratar, os pacientes são submetidos a procedimentos que quebram suas barreiras naturais às infecções. Por exemplo, o uso de cateteres na veia visa à aplicação de medicamentos, mas quebra a integridade da pele, propiciando a entrada de bactérias por essa via. Da mesma forma, uma sonda na bexiga para medir o volume de urina facilita a chegada de bactérias à bexiga, causando infecção dos rins ou generalizada (sepsis). Outro exemplo: o tubo oro-traqueal, passado pela garganta do paciente, visa oferecer oxigênio a quem não consegue respirar sozinho; no entanto, também permite que bactérias alcancem os pulmões, causando pneumonias;

4 – devemos comemorar o aumento da sobrevida dos pacientes, inclusive daqueles internados. Pacientes que há algum tempo morreriam antes mesmo de chegar ao hospital – como os portadores de cânceres, infartos, derrames ou vítimas de traumas e violência – hoje sobrevivem. Isso em grande parte às custas do uso dos dispositivos citados. Junto a isso, é enorme o crescimento de doenças degenerativas que aumentam o grau de dependência dos pacientes;

5 – na tentativa de reduzir tais riscos, todo hospital é obrigado a manter em funcionamento um Serviço de Controle de Infecções Hospitalares (SCIH), o qual está inserido em uma Comissão de Controle de IH’s (CCIH), composta por representantes de todas as áreas envolvidas direta ou indiretamente na assistência ao paciente. São seguidas normas definidas por órgãos nacionais e internacionais.

Portanto, pacientes submetidos a procedimentos que lhes podem salvar a vida têm, paradoxalmente, um risco aumentado de adquirir infecções hospitalares potencialmente graves ou fatais. Assim, internações devem ser absolutamente necessárias. Desnecessário dizer que ninguém ou nenhuma instituição patrocina tamanha tragédia, nem que suas soluções estejam escondidas na geleia ideológico-partidária brasileira. A redução dos riscos de infecções hospitalares é tarefa conjunta de profissionais da área da saúde, administradores, pacientes e familiares, por meio de medidas complexas ou de outras extremamente simples e eficientes, como o simples ato de lavar as mãos.

Thogo Lemos
Médico Infectologista do HC-UFU
Gerente de Riscos do Hospital Municipal

Publicado no Jornal Correio em 7 de Março de 2013