Secretaria Municipal de Saúde






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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

De morcegos e escorpiões

Incidência de morcegos cresce durante este período do ano
por Leonardo Leal


O Laboratório de Animais Peçonhentos e Quirópteros do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Uberlândia tem recebido de oito a dez ligações por dia de moradores que encontram morcegos em casa. O laboratório recebe ligações durante todo o ano, mas, no período de novembro a maio, esse número chega a quadruplicar devido à reprodução da espécie. Em 2014, até novembro, a equipe do laboratório capturou 56 morcegos vivos e orientou 352 moradores. O contato para agendar a visita do CCZ é a medida mais correta para ficar livre dos mamíferos.


Veterinário William H Stutz disse que existem, em Uberlândia, 
58 espécies de morcegos (Foto: Cleiton Borges)

O laboratório vem recebendo, neste mês, chamados de moradores dos bairros Tibery, zona leste, Pampulha e Jardim Karaíba na zona sul, Jardim Brasília, zona norte, Canaã, zona oeste e Roosevelt, no setor central. O veterinário do CCZ, William Stutz, disse que os morcegos estão por toda a cidade e que, nessa época, usam o telhado das casas para se reproduzir. “Os moradores recebem orientações sobre a vedação de telhado, frestas e como tratar as colônias de morcegos”, disse Stutz.

No Brasil, segundo o veterinário, há cerca de 170 espécies de morcego, em Uberlândia, são 58 e somente três espécies se alimentam de sangue, sendo uma de mamíferos e duas de aves. “Como quase todo mamífero terrestre, o morcego é um potencial transmissor da raiva.” O especialista disse ainda que cerca de 70% das espécies de morcegos se alimentam de insetos e ajudam a reduzir a quantidade deles na zona urbana e o uso de agrotóxicos nas lavouras.

Na semana passada, um morcego apareceu do lado de fora da residência da dona de casa Pâmela de Oliveira Souza, no bairro Canaã. “Fiquei preocupada porque tenho duas crianças pequenas.” Ela disse que os agentes do CCZ recolheram o mamífero que estava morto e a orientaram a ligar no mesmo dia, caso apareça outro morcego.

Aumenta também o aparecimento de escorpiões

O número de ligações para reclamação de escorpiões é cinco vezes maior no período de novembro a maio devido também à reprodução da espécies e às chuvas da estação. O Laboratório de Animais Peçonhentos e Quirópteros do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Uberlândia recebe cerca de 20 ligações por dia nessa época.

Os bairros onde os escorpiões têm aparecido mais são o Cazeca, o Martins e o Fundinho, no setor central, e o Santa Mônica, na zona leste.
De acordo com o veterinário do Laboratório do CCZ, William Stutz, há sete espécies em Uberlândia e o escorpião amarelo é o mais encontrado. O especialista disse ainda que, neste ano, até novembro, foram recebidas 1.359 reclamações e foram capturados 1.176 escorpiões. “Quinhentos e quarenta e oito foram enviados à fundação Ezequiel Dias (Funed) para extração do veneno.”

Stutz afirmou que os moradores que encontrarem escorpiões também devem ligar para o laboratório. Caso tenha sido picada pelo aracnídeo, a pessoa deve se dirigir diretamente à Unidade de Atendimento Integrado (UAI) Pampulha ou ao Pronto-Socorro do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU). No caso dos morcegos, a pessoa mordida deve procurar a UAI Martins ou o HC para receber vacina antirrábica.

Jornal Correio de Uberlândia

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Fado


Inspirado em entrevista ao Jornal Correio da 
Prof ª  Drª   Ana Maria Bonetti dias atrás.



Fado

Um belo dia, o mundo amanheceu um pouco mais silencioso. Não que os carros ou as indústrias tivessem suas máquinas desligadas, transformando as cidades em um longo e duradouro domingo à tarde. Era um silêncio diferente e notado por poucos. Os que lotavam pontos de ônibus para, em amarga tristeza, irem trabalhar, nada notaram de diferente. A rotina, a bovina passividade de sair de casa diariamente para se fazer o que não gosta, os impedia de atentar para assuntos que não fossem a complicada tarefa de sobreviver. Nas cidades maiores, onde os metrôs ziguezagueiam como imensas cobras cegas no subsolo, menos ainda. Tudo anormal como sempre. Desumana repetitiva jornada de vida. Vazio só.

Mas algo estava diferente e poucos sabiam do grande risco que corriam. Porém, o que importa? No campo, nas matas, nos cerrados, o constrangedor silêncio foi percebido de pronto. Faltava alguma coisa. Bichos e homens da lida campestre sentiram algo estranho, indefinido. O moço a carpir lavoura começou cedo. Mal o sol deu as caras encalorado, a atenção foi aguçada. Falta alguma coisa, mas o quê? Apoiado no cabo de guatambu da enxada punha reparo, observava. Muito estranho. Passarinho diferente não era, conhecia todos. Vento também não. Soprava manso e ainda fresco, secando a noite que se foi.
Continuou trabalho. Cisma danada que atormenta!

Hora da merenda, mulher chega com marmita. Trocaram olhares preocupados.
— Também está percebendo?
—Tô, respondeu olhando o chão arado.
— Me conta pelo amor de Nossa Senhora. Tá sentindo o quê?
— Um aperto no peito e na boca do estômago.
— Eu também.
— Mas tem coisa aí, que mais tá sentindo?
— Um vazio. Vazio no tempo, vazio no ar. Sei explicar não. Mas tô gostando não.

A mulher se foi e ele, sozinho novamente. Tomou rumo da mata perto da nascente do córrego. Encheu a cabaça de água fresca e descalçou as botinas. Enfiou os pés na água fresca e se pôs a olhar em volta. Tinha que ficar atento, pois ali tinha colmeia gigante da qual, vez ou outra, colhia boa lata de mel. Deu uma espiada para o lado dela. Só não caiu porque já estava sentado. Não havia abelha, uma sequer. Os favos pendiam em branca cera e as formigas carregavam afoitas as larvas ainda vivas.

As abelhas! Falta o zumbido das abelhas! Gritou a plenos pulmões. As abelhas tinham partido. Ninguém sabia para onde e nem o motivo. No jornal, deu que sumiram no mundo todo. Era o sinal de que, depois de tanto judiar da terra, chegara a hora de pagar pelo malfeito. Por séculos destruímos e arrancamos a fórceps tudo o que a terra podia nos dar. Cansada, resolveu parar. Era o fim do experimento Terra.

Tardezinha, casal lá na roça, abraçado, sentado em banco perto da represa, olhava entristecido o céu estrelado por demais. Havia milhões de estrelas a mais do que o normal e um caminho de poeira se desenhava partindo daqui para profundo canto do universo. Foi para lá que as abelhas foram. Viraram estrelas e deixaram belo e brilhante rastro de pólen, como presente de despedida. Foram-se em busca de paz. E o mundo, condenado, ficou bem mais triste.






Publicado Jornal Correio em 29/11/2014


Fado